Por Patricia Travassos e Clovis Travassos

São Francisco se impõe logo na chegada. É, no mínimo, curioso sair do aeroporto e já  dar de cara com um outdoor que oferece “Maconha legal: delivery em uma hora ou menos”. Um pouco mais adiante, em direção ao centro, outro cartaz justifica a circulação de carros autônomos (ainda em treinamento, com motorista): “São Francisco é a pior cidade da Califórnia para se dirigir. Por isso, é o melhor lugar para aprender”. As mensagens resumem bem o posicionamento da região. Se vier ao Vale do Silício, esteja aberto a pensar diferente. E foi para isso que viemos! Mergulhamos na cobertura do Singularity University Global Summit 2019, em busca de reflexões sobre a nova economia e as tendências de inovação.

Ao longo dos três dias de evento, Peter Diamandis, co-fundador da Singularity University, uma das mais badaladas instituições que se propõe a estudar o futuro, não se cansou de repetir: “Transforme o seu pior problema numa oportunidade, inclusive de negócios”. Ok, parece frase de autoajuda, mas é um convite a uma mudança de perspectiva. Ele é um otimista convicto. Acredita que estamos vivendo o período mais abundante da história. “É a era da convergência tecnológica que está transformando negócios, indústrias e as nossas vidas, de forma cada vez mais rápida e mais barata”.

O discurso contrasta com o cenário do entorno do hotel onde o evento foi realizado. Ao sair pelas ruas próximas à turística Union Square, ainda tomados pela confiança de Diamandis, empreendedores e executivos, focados no amanhã, imediatamente tomam um choque de realidade. A população de rua chama atenção a qualquer hora do dia ou da noite. Jogadas pelos cantos ou perambulando inertes pelas calçadas entre os descolados patinetes de aplicativo, as pessoas reviram as lixeiras (seletivas, claro) e exalam o descaso da inovação diante desse velho problema.

Preparado para questionamentos no dia seguinte, Diamandis afirma que nunca estivemos tão preparados para lidar com esse e com qualquer outro grande desafio. Ele admite que em meio aos noticiários recheados de crises e tragédias, seja difícil convencer as pessoas de que vivemos a era da abundância e não da escassez. “Mas não é muito melhor enfrentarmos essas dificuldades com a tecnologia que temos hoje? Uma das razões para acreditar que o mundo está cada vez melhor é a quantidade crescente de empreendedores criando startups com ideias aparentemente loucas. Um mindset negativo nunca vai levar ninguém a uma vida positiva. É preciso ter empatia e saber atacar a real causa dos problemas, sonhando grande e seguindo um propósito genuíno”, responde Diamandis.

Com esse pensamento, ele que é médico formado em Harvard, acredita ainda que o nosso atual “Sistema de Doença” será finalmente transformado num verdadeiro “Sistema de Saúde”. “E quem viver até 2069, não morrerá mais”. Para quem pensa em criar uma versão digital do próprio cérebro, baseada em inteligência artificial, a ideia não parece tão absurda.

Mas preferimos concordar com o outro médico da SU, Daniel Kraft. Para o responsável pelas pesquisas e investimentos da instituição na área da saúde, viver para sempre parece muito tempo. Ele acredita que a medicina chamada exponencial, capaz de orientar para a saúde os benefícios da convergência tecnológica, pode nos tornar mais ativos e menos reativos em relação aos cuidados com o nosso bem estar. Vamos começar a prever e prevenir doenças e não só tratá-las. Aumentaremos consistentemente a nossa expectativa de vida, mas “mais do que agregar anos à vida, buscamos agregar vida aos anos extras”, afirma Kraft.

O publicitário brasileiro Nizan Guanaes já está se preparando para os anos a mais que poderá viver diante de tantos avanços. Aos 61 anos, ele decidiu “voltar para a escola”. Em busca de atualização, só este ano, ele fez um curso em Harvard, e saindo desse evento, seguiria ainda para outra sessão de conhecimento na Universidade de Stanford. Para ele, “o futuro é desconcertante. As pessoas gostam muito do futuro, mas elas pensam que ele vai chegar penteado e barbeado. O futuro é uma confusão e foi isso que a gente viu aqui”. Nizan se formou em administração em 1979 e está seguro que o lifelong learning é o que pode garantir que as pessoas se mantenham ativas.

“O futuro não é uma camiseta que cabe em todo mundo” – Nizan Guanaes

Vivemos a era dos wearables, em que podemos monitorar continuamente nossa rotina física (dos nossos sinais vitais até a qualidade do sono) e caminhamos para tecnologias ainda mais avançadas como a dos ingeríveis (em que poderemos usar impressoras 3D para fabricar medicamentos personalizados ou sensores internos) e chegaremos aos implantáveis (que poderão aumentar a nossa capacidade de memória e de pensamento). Assim como é natural acreditarmos que o carro está com problema quando a luz do painel acende, teremos ferramentas para nos antecipar às doenças antes que elas provoquem qualquer sintoma ou mesmo apareçam.

Para Amin Toufani, chefe da cadeira de finanças da SU, a nossa capacidade de prever o futuro imediato traz grandes oportunidades para a inovação exponencial. Ele abordou um conceito ainda pouco conhecido dos brasileiros, chamado Digital Twins (gêmeos digitais), que permite a simulação detalhada de objetos ou modelos, substituindo a criação de protótipos reais. Com isso, ganhamos velocidade, economizamos recursos e criamos projetos pra lá de surpreendentes.

Imagine prever com uma fração de segundo de antecedência a ocorrência de um acidente de bicicleta! Uma tecnologia de inteligência artificial foi usada por uma empresa sueca na criação de uma espécie de airbag para ciclistas, que promete ser 8 vezes mais eficaz do que a proteção de um capacete convencional:

A capacidade de prever o futuro tem inspirado modelos negócio inusitados: as seguradoras de automóvel começam a recompensar motoristas que respeitam as leis, os planos de saúde tendem a personalizar cada vez mais as tarifas e até uma companhia de comédia catalã encontrou uma forma de aumentar o valor dos seus ingressos, sem que o público reclamasse.

Para reagir diante do aumento de impostos para espetáculos teatrais, a companhia buscou uma solução criativa para ampliar seu faturamento. Instalou um tablet em cada poltrona da plateia. Por meio de reconhecimento facial, os produtores passaram a monitorar e a contar o número de risadas de cada espectador durante a peça. O ingresso cobrado por risadas levou o preço médio a aumentar em 6 Euros e fez o público crescer cerca de 35%. Veja no vídeo abaixo:

Para nós, todas as palestras e cases do evento deixaram uma certeza: é na união entre criatividade humana e tecnologia que mora o sucesso dos negócios hoje e sempre.

A conclusão surge depois de acompanhar os principais keynotes e painéis sobre inteligência artificial e impacto social, neurociência e liderança, além de medicina exponencial. Teve ainda conteúdo sobre cidades inteligentes, transporte, blockchain… e depois de fazer a nossa seleção, em vez de FOMO (Fear of Missing Out), adotamos uma nova sigla JOMO (Joy of Missing Out). Quando o aprendizado é relevante, chega a dar prazer encontrar foco. Mesmo não vendo tudo, foi o suficiente para torrar nossos miolos até sair fumaça.

Nos permitimos nos emocionar com a narrativa e a música da atriz Denise Ho, de Hong Kong. Ela narrou a importância do uso da tecnologia na estratégia de organização dos protestos na região dela. E realmente trouxe à tona o propósito que vem da alma. O nosso aqui é comunicar e traduzir a inovação para quem quiser embarcar no futuro!

É preciso estar atento a informações, pontos de vista, desafios e potenciais de mercado, desenvolvendo um pensamento crítico que nos possibilite selecionar a melhor teoria para ser aplicada na prática. Como bem definiu Nizan Guanaes (e destacamos no olho deste artigo), “o futuro não é uma camiseta que cabe em todo mundo”. Então, crie o seu também!

“SU Global Summit 2019: Se você entendeu tudo é porque não prestou atenção!”

Citação atribuída a Aleksandar Mandic, lembrada pelo publicitário Nizan Guanaes, quando questionado sobre o evento

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