A conta que empurramos para depois

Por Clovis Travassos

Há mais de vinte anos, em “O Valor do Amanhã”, o economista Eduardo Giannetti mostrou que os juros não são coisa só de banco. São o preço que damos ao tempo, e essa troca entre presente e futuro está em quase tudo, da dieta que adiamos ao corpo que envelhece. Ele chama de miopia temporal a nossa tendência a dar peso demais ao agora e de menos ao depois.

O que é a miopia temporal na crise do clima?

Não existe exemplo mais perfeito de miopia temporal do que a crise do clima. O custo de agir está aqui, o benefício está adiante, e o presente quase sempre ganha a queda de braço. Sabemos do problema com muita clareza e, mesmo assim, não mudamos o que fazemos na manhã seguinte.

É por isso que vale contar o que acontece quando um documentário sobre clima entra numa sala de aula. Não importam o nome da instituição nem a cidade.

O impacto do documentário sobre o clima na sala de aula

A turma chega tendo assistido ao filme em casa, cada um no seu tempo. O professor começa perguntando. Muitas vezes, a primeira coisa que aparece é o desconforto: alguém admite que sentiu a tal ansiedade climática, e a sala reconhece a sensação sem precisar nomeá-la.

A partir daí o filme sai da tela e vira matéria. O professor usa o guia como quem usa um mapa. Organiza a turma em torno da pergunta que o documentário deixa de propósito em aberto: adianta mudar o hábito individual, ou é só um jeito de empurrar para o cidadão comum uma conta que é, na verdade, dos grandes emissores? Os alunos debatem. Uns defendem a micro revolução, a composteira, o alimento aproveitado por inteiro. Outros respondem que isso é pouco diante de quem de fato emite. Ninguém sai com a resposta pronta, que é justamente o ponto.

Como levar a discussão climática e ESG para as empresas

O mesmo se dá quando o debate acontece numa empresa. Troque os alunos por uma equipe de liderança ou pela área de sustentabilidade, e a cena se repete com outros ângulos e graus de urgência. Nenhuma organização escapa da miopia temporal de que fala Giannetti: o custo de agir aparece no trimestre, o benefício aparece daqui a uma década, e a pressão do resultado imediato empurra o futuro para depois. Uma exibição seguida de conversa faz, por algumas horas, o que a rotina corporativa raramente permite. Põe o amanhã sobre a mesa e nos obriga a pesar.

Porque é isso que uma boa história faz. Uma história, contada com gente real e um pouco de humor, nos tira da inércia. O futuro deixa de ser abstração distante e ganha rosto. É mais difícil descontar o valor de um rosto.

Quando a conversa termina, raramente termina de verdade. As pessoas seguem no corredor. Algumas voltam decididas a mudar uma coisa pequena, cientes de que é pequena. Talvez seja só isso que se possa pedir de um filme ou de uma aula: que o amanhã saia dali pesando um pouco mais do que entrou.

Comigo, aliás, o amanhã começou a pesar num ponto até constrangedor. Dirijo uma produtora que fala de clima e levei mais tempo do que devia para separar o lixo de casa corretamente. Pura inércia. O filme me fez agir. É pouco. Mas é mais do que eu fazia.

É essa a experiência que Pimenta no Clima pode levar a uma universidade, a uma escola ou a uma empresa. O filme está aberto no YouTube, e o guia de discussão fica à disposição de quem quiser conduzir a conversa, na sala de aula ou na sala de reunião.