Por Clovis Travassos e Patricia Travassos

Que a palavra “exponencial” turbina qualquer ideia relacionada ao avanço ou crescimento tecnológico, não há dúvida. Mas será que Darwin incluiria o termo no vocabulário dele para tratar de assuntos relacionados à evolução humana? 

Em tempos de convergência das tecnologias, a velocidade de transformação dos negócios, indústrias e até do nosso comportamento têm sido mesmo cada vez maior. As inovações criadas nos últimos 20 anos são mais significativas do que dos 2 mil anos anteriores. Computadores têm acompanhado ativamente esse ritmo. E o nosso cérebro? De que forma a nossa saúde está sendo impactada pela chamada Revolução 4.0, tendo em vista que a medicina é uma grande protagonista deste movimento?

Essas questões levaram a SBCPO a embarcar junto com a Prosa Press no Singularity University Global Summit 2019. No evento realizado em São Francisco, na Califórnia, pela badalada instituição criada no coração do Vale do Silício para estudar o futuro, acompanhamos atentos o conteúdo apresentado no Health Track para oferecer aos nossos associados mais esta fonte de atualização. 

Foi uma sequência fascinante de palestras que apresentaram pesquisas científicas e tecnologias voltadas especificamente a oferecer uma melhor qualidade de vida para as pessoas e a transformar o nosso atual “Sistema de Doenças” num verdadeiro “Sistema de Saúde”. 

Foi assim que definiu o Dr.Daniel Kraft, sobre a mudança de paradigmas que estão transformando a medicina que se pratica hoje. Durante uma entrevista exclusiva, o médico, pesquisador e líder do departamento de Medicina da SU refletiu sobre as principais tendências para o futuro da medicina. Esse material é um convite para nos mantermos motivados a discutir mais sobre o impacto dos avanços da tecnologia na nossa especialidade e na nossa atuação como profissionais da saúde.

Uma mudança de perspectiva

A maneira como pensamos a saúde e as doenças normalmente é compartimentada e dividida em especialidades focadas nas diferentes partes do corpo. O modelo de saúde atual bem que poderia ser chamado “Sistema de Doença”. Afinal, já dedicamos muito mais recursos para tratar as doenças do que para preveni-las. Neste modelo, o paciente visita o médico para consultas eventuais, normalmente, só após o surgimento de algum sintoma.  

Temos agora a oportunidade de “ligar os pontos” explorando todo o potencial das tecnologias exponenciais. A convergência das tecnologias digitais e das plataformas sociais tornou possível conhecermos os nossos genótipos e compartilhar nossas informações com o mundo online. 

O desafio será deixar de tratar as doenças e passar a prevê-las e preveni-las!

A “medicina exponencial” tem metas bastante desafiadoras: não basta adicionar anos às nossas vidas…é preciso adicionar vida aos anos extras que viveremos, quando nos habituarmos a comemorar aniversários de 150 anos (ou mais). E é aí que entrará a “medicina restaurativa” que se propõe a reverter os efeitos do envelhecimento. 

Saúde x Prevenção

Atualmente existem dados que nos permitem conhecer as principais causas de morte e buscar soluções para combatê-las. Para isso, além do estudo dos fatores genéticos, é preciso observar os comportamentos e hábitos dos pacientes. 

Já sabemos que alguns hábitos e comportamentos inadequados (dieta desequilibrada, falta de atividade física, falta de sono, excesso de álcool, fumo, stress e falta de acompanhamento médico) são algumas das principais causas para doenças crônicas que acabam por consumir 80% dos gastos mundiais com saúde.  

Novas áreas de atuação

A convergência das novas tecnologias abre novos campos na área de saúde tais como Biologia Computacional, Sequenciamento Genético, AI & Radiologia, Telemedicina, Medicina Personalizada, Cirurgias Robóticas, entre outros. 

Um cenário que contempla a combinação entre as tecnologias disruptivas (sensores, inteligência artificial, IoT, etc) com o uso de sistemas de informação geográficos de diversas camadas (clima, transporte, censo, estrutura, relevo, etc) com outros sistemas com informações dos pacientes (clínica, genética, epigenômica, etc) produzirá ganhos fantásticos que permitirão um diagnóstico mais rápido e mais acurado com cada vez melhores opções de tratamentos. 

Acelerando o diagnóstico

Atualmente já estão disponíveis inúmeros aparelhos e sensores que permitem capturar dados dos pacientes:

Relógios Inteligentes e biosensores

Os inúmeros modelos de smartwatches já monitoram atividades físicas e até fazem eletrocardiogramas. Também já existem (e estão sendo criados) biosensores que medem a pressão arterial, temperatura, índice de glicose no sangue e o padrão de respiração do paciente. São aparelhos, relógios, adesivos, implantes e até mesmo sensores ingeríveis que permitirão todo este monitoramento de indicadores.

Balanças Inteligentes

Além de medir o peso, as balanças modernas tiram medidas, medem o índice de massa muscular e a quantidade de gordura. Todas estas informações podem estar conectadas ao celular e transmitidas online para uma base de dados compartilhada com o médico.  

Invisibles

Já existem soluções inteligentes que envolvem câmeras para monitorar o sono de bebês ou até mesmo os hábitos de alimentação de pessoas idosas (ex.: hidratação, alimentação, etc). Além disso, equipamentos similares aos roteadores de wi-fi acompanham o nosso comportamento e monitoram indicadores relevantes.  

Aplicativos

Atualmente existe uma infinidade de aplicativos que registram a evolução dos dados médicos de cada paciente. Eles acompanham os principais indicadores e monitoram outros aspectos como, por exemplo, a qualidade do sono e da alimentação. 

A nova maleta dos médicos

A maleta dos médicos também deverá se modernizar e novos gadgets serão incorporados. Isto porque já estão disponíveis equipamentos de ultrassom, com recursos de Inteligência Artificial, que podem ser conectados ao celular. Eletrocardiogramas podem ser realizados no Smartwatch e outros acessórios permitem a rápida análise de amostras de sangue pelo smartphone. Estes são só alguns exemplos de recursos que já estão à disposição dos médicos.

Internet das Coisas

Todas estas informações estarão conectadas através da Internet das Coisas (IoMT – Internet of Medical Things) e serão compartilhadas com os médicos e serviços de saúde para um acompanhamento continuado e preventivo baseado em dados. Dados que serão a grande fonte de conhecimento para universidades e empresas médicas mapearem a saúde humana.

Em resumo: seremos monitorados e ficaremos conectados 24 x 7!

Transformando dados em conhecimento

Saber fazer as perguntas certas diante de tantos dados será uma habilidade fundamental para os médicos.

Previsibilidade

Assim como já acontece nos carros mais avançados, algoritmos poderão ser usados para realizar diagnósticos médicos. Já estamos acostumados a ver painéis inteligentes indicando quais as peças estão danificadas e precisam de reparo preventivo ou corretivo. Por que não fazer o mesmo com os pacientes antes que os sintomas apareçam ou que a doença se manifeste?

Conhecimento Compartilhado

As bases de conhecimento poderão ser compartilhadas entre os sistemas de saúde e países com o objetivo de melhorar o tratamento das pessoas.

DNA x CEP

Será que a expectativa de vida tem a ver com o nosso CEP? De acordo com o Dr. Daniel Kraft, este é um fator muitas vezes mais relevante até do que o nosso DNA, já que a qualidade da água, do sistema de vacinação, hábitos no local onde vivemos têm grande influência na saúde das pessoas. Existem estudos que mostram que certas localidades, chamadas de Blue Zones, possuem um conjunto de hábitos de alimentação e atividades físicas que elevam a expectativa de vida média da população. 

Cada paciente é único

É preciso entender o que cada paciente valoriza. Enquanto as gerações mais antigas tendem a valorizar o contato pessoal com o médico e ter uma atitude mais passiva em relação aos tratamentos, os jovens podem aceitar (e preferir) o contato à distância e se engajar mais nos cuidados com a saúde. O paciente vira “co-piloto” que vai auxiliar o médico no comando das decisões.  

Realidade aumentada

A realidade aumentada já virou febre na Internet em alguns aplicativos que simulavam nossa aparência mais velha ou mais nova. Mas a tecnologia pode ser muito melhor explorada na simulação não só do envelhecimento, mas também dos efeitos causados por maus hábitos. Além disso, a realidade aumentada também pode ser usada para o treinamento de médicos.

Novos tratamentos

A seguir, listamos exemplos de como novas tecnologias podem ser aplicadas na área da saúde com grandes impactos:

  • O uso de blockchain para aumentar a segurança do registro de recém nascidos;
  • A biomedicina e a telemedicina são algumas das tendências na área de saúde. 
  • O uso da impressão 3D também deverá ser ampliado na produção de próteses e órgãos para transplantes. 
  • Sistemas automáticos de aplicação de medicamentos
  • A realidade virtual para treinamento
  • O uso dos chatbots para tirar dúvidas frequentes de pacientes
  • O uso de videogames também já pode fazer parte de alguns tratamentos cognitivos.
  • A medicina regenerativa vem sendo utilizada para reparar, substituir e recuperar tecidos e órgãos danificados em tratamentos cardíacos, neurológicos, decorrentes da diabetes ou de traumas. 

Finalmente, porque não produzir um único comprimido com todas as substâncias que seu médico prescreveu? As “Poly Pills”, produzidas sob medida para cada paciente, poderão ser uma realidade em breve.

Conclusão

O Dr.Daniel Kraft é bastante otimista em relação ao futuro e acredita que a Medicina Exponencial terá um papel fundamental para ampliar a expectativa de vida das pessoas. Segundo ele, a Inteligência Artificial não substituirá médicos e enfermeiros, mas exigirá deles uma real mudança de postura. Esses profissionais precisarão, obrigatoriamente, saber usar a tecnologia, formulando as perguntas certas para a partir do enorme volume de dados,  obter conclusões que os ajudem a fortalecer a sua relação com os pacientes. Assim, essa relação de confiança nunca será substituída.

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